sexta-feira, outubro 15

ORAÇÃO DA MESTRA

Senhor! Tu que ensinaste, perdoa se eu ensino, se levo o nome de mestre que levaste pela Terra!
Concede-me o amor único de minha escola, que nem o sortilégio da beleza seja capaz de roubar-lhe a minha ternura de todos os dias.

Mestre, faz perdurável a minha paixão e passageiro o desencanto. Arranca de mim este impuro desejo de justiça que ainda me perturba, a revolta que nasce dentro de mim quando sou ferida; que não me doa a incompreensão, nem me entristeça o esquecimento daqueles a quem ensinei.

Concede-me a ser mais mãe que as mães, para poder amar e defender, como elas, o que "não é carne de minhas carnes"; que eu chegue a fazer, de um dos meus alunos, meu verso mais sublime e a deixar-TE nele gravada, minha mais insinuante melodia para quando meus lábios não cantem mais.

Torna-me possível Teu Evangelho, em meu tempo, para que não esmoreça na luta de cada hora por ele. Põe, em minha escola democrática, o resplendor que descia sobre Teu coro de meninos descalços.

Faz-me forte, ainda em meu desvalimento de mulher, e de mulher pobre; faz-me desprezar todo poder que não seja puro; toda pressão que não seja a de Tua vontade ardente sobre minha vida.

Amigo, acompanha-me! Sustém-me! Muitas vezes não terei senão a Ti, a meu lado. Quando minha doutrina seja mais verdadeira, e, mais causticante minha verdade, eu ficarei sem os mundanos, mas Tu me acolherás em Teu coração que muito soube já de solidão e desamparo.
Só em Teu olhar, buscarei as aprovações. Dá-me singeleza, e dá-me profundidade; livra-me, Senhor, de ser complicada ou banal em minha lição cotidiana.

Concede-me levantar os olhos de meu peito ferido, ao entrar cada manhã em minha escola; que não leve à minha mesa de trabalho os meus nímios afazeres materiais, minhas ínfimas dores.

Torna leve minha mão ao castigar, e fá-la mais suave, ainda, na carícia. Repreenda eu com sentimento para saber que corrigi amando.

Permite que construa de espírito minha escola de tijolos; qua a flama de meu entusiasmo envolva seu edifício pobre, sua sala desnuda. Meu coração seja mais coluna, e minha boa vontade mais ouro que as colunas e o ouro das escolas suntuosas.

Enfim, lembra-me desde a palidez da tela de Velásquez, que ensinar e amar intensamente sobre a Terra é chegar ao último dia com a lança de Longinos espetada de lado a lado.

Autora: Gabriela Mistral, antologia, 1941

0 Comments:

Related Posts with Thumbnails
 
©Dez 2009 Rachel Por Encomende Aqui Blog Dos Layouts